RESENHAS


Além de ser jornalista cidadã, Jéssica Balbino é bastante ligada a comunicação da periferia e a toda produção que acontece às margens da sociedade. Por isso, dedica-se a ler, pesquisar e entender a produção literária. Mais do que isso, dá espaço aos autores, com uma coluna de resenhas sobre Literatura Marginal no site Central Hip-Hop.
Para ler as resenhas de 2012, acesse direto os links abaixo ou vá rolando esta página.
Boa leitura ! 

Libido em foco 














RESENHAS 2012 

Um Retrato Fiel do Morro Santa Marta 
Primeiro livro do repper Fiell remete a reflexão e desejo de mudança

Um retrato real e fiel, direto da mente e dos costumes de um morador do morro Santa Marta. Assim pode ser resumido o livro de Fiell, que se autointitula repper, com ‘e’ mesmo, ao invés de rapper, para afinar a proximidade entre o improviso sobre as bases e o repente nordestino.
Um livro simples e verdadeiro. Assim é a obra do músico que lidera a rádio comunitária do Santa Marta e que, munido do conhecimento que buscou, sozinho e por vontade própria, tenta transmitir a outras pessoas que moram nas favelas de todo país.
Massacrado pelo sistema, Fiell não se deixa vencer e briga, por meio da literatura, do rap, da música e da comunicação, por um lugar melhor, por um morro mais humano, por um mundo menos alienado.
Pequeno no tamanho e forte no que tem a dizer, o livro não economiza nos prefácios e traz quatro, assinados por diferentes personalidades que conviveram com o rapper, inclusive o músico e jornalista Marcelo Yuka, que logo de cara questiona: “Se o mundo acabasse hoje quantos dentro da literatura, dentro da música, poderiam dizer politicamente o que acham no mundo hoje?”. E são estas dúvidas que pontuam a existência de Fiell e o que o levam a questionar, buscar saber e dividir nas páginas da primeira obra literária com outras pessoas o que quer: um mundo mais igualitário.
Inimigo declarado do capitalismo, declara que não precisa de marcas para se sentir bem e sim de conhecimento. Frequentador de bibliotecas, indica vários títulos que segundo ele, lhe abriram a mente. E por isso, ele tem propriedade para falar, criticar e sugerir mudanças, em capítulos curtos, mas muito bem escritos, pela mão de quem sempre trabalhou, não aceitou desaforo de patrão – e nem do sistema – e pela consciência de quem quer compartilhar o que aprendeu.
“Favela ou comunidade?”, “A TV e você” “Diretos para quem?” e cidadania são alguns dos capítulos do livro que lembram o poder da voz de um favelado que pensa.
Então, fica a dica. “Da favela para as favelas” é um passeio pelo Santa Marta, pelo universo do Rio de Janeiro até então desconhecido e mais, um olhar de quem enxerga de dentro para fora e te propõe a fazer o mesmo.
O sabor do final do livro é de vontade de mudar, de fazer mais, de ir além, de conhecer e de se mexer. Sair da bolha da estagnação é quase um pedido desesperado.
Fiell é também autor da Cartilha Popular do Santa Marta – Abordagem Policial que pode ser baixada aqui .

Serviço –  O livro pode ser comprado através do e-mail livrofiell@gmail.com  ou (21) 7704-0912


Toni C: “O Hip-Hop Está Morto”


Primeiro romance de Toni C. envolve grande trabalho de pesquisa sobre a cultura hip-hop e contextualiza partes importantes da história junto a ficção

Dez anos de debate, escrita e conversa. Toda uma vida em trabalho de pesquisa. Assim pode ser resumido o mais novo trabalho de Toni C.. O recém-lançado livroO Hip-Hop Está Morto vem como o anúncio ousado da história da cultura no país. “Por muitas vezes e em várias situações, me pergunto: o que seria de mim (nós) se não fosse o Hip-Hop? Sinceramente nem me atrevo a responder”, prefacia o rapper Dexter.
O nome, por si, já desperta o interesse e a brincadeira de cores – verde e amarelo – prometem um romance ao melhor estilo tupiniquim.
Agitador cultural, autor e organizador de outras obras, Toni C., ousa ao se apropriar do movimento/cultura hip-hop como personagem principal de um romance, não ao estilo de Luiz Puntel em “O grito do hip-hop” e em longe do gringo “O hip-hop e a filosofia”, o escritor brasileiro traz para as 150 páginas do livro muita filosofia e antropologia, numa análise pessoal e personificada por um hip-hop que neste caso – e somente nesta sacada excepcional do autor – ganha corpo e sentimentos.
A linguagem coloquial e as fotos de personalidades da cultura no Brasil e também fora dele dão estilo ao produto e mais charme à narrativa, feita em terceira pessoa e passeando por personagens fictícios e reais, ou seriam reais e fictícios?
A resposta fica por conta de quem lê, se é que isso é possível. Um incômodo acompanha o leitor da primeira a última página do romance.
Conceitual sem ser exagerado, o livro traz ainda um grande trabalho de pesquisa e vivência. Além disso: coragem. É preciso maestria para criar emoções, caras e bocas num personagem que nasceu na periferia e que embala a vida de tanta gente no Brasil e no mundo.
Sugestivo, provocante e esclarecedor. O livro também pode ser descrito desta maneira. Com elementos saudosistas, Toni C., mescla passado e futuro numa consciência coletiva e não poupa quem lê.
“Estamos passando por uma fase crítica do hip-hop e acredito que estamos criando novas formas de reconstrução para manter viva nossa cultura”, é o que responde Toni C., ao ser questionado sobre a ideia de fazer este livro.
A emoção é inevitável em várias páginas. Relembrar grandes momentos ou grandes ícones é como ler e sentir, sempre que quiser, ao alcance das mãos, a própria história. No entanto, se por um lado Toni C. revive toda história da cultura, imprime contextos bastante pessoais na mesma e só cita quem considera fundamental para o movimento, ou seja, embora seja histórico, o livro tem, de certa forma, impressões latentes do autor.
Necessário. Como um dos primeiros lançamentos da literatura marginal/divergente/periférica ou do oprimido, como Toni C. gosta de falar, fica a dica de que em 2012, os dias prometem produções cada vez mais picantes e cada dia com mais qualidade.
Para quem não conhece a história do hip-hop, um excelente começo. Para quem já conhece, uma oportunidade de rever fatos, história e mudar. Por dentro e por fora. Se questionar.
Para todos que querem entender a cultura hip-hop e por conseguinte a literatura brasileira: um livro obrigatório. “Considero fundamental ter consciência, registrar esse momento e adquirir novas táticas”, frisa Toni C.
Avaliação CHH: ÓTIMO
Serviço – Para comprar o livro, entre no site www.literaRUA.com.br

Literatura: Libido em foco

Akins Kintê e Nina Silva apresentam obra com poesias eróticas e críticas

Por Jéssica Balbino
Sabor de gozo. De foda bem dada. De saudade de uma boa rapidinha. De uma transa combinada. De um sexo por acaso. De corpos ainda ofegantes. De uma punheta bem batida. De sacanagem no ouvido. De sacanagem por telefone, e-mail, ao vivo. De putaria. De amor contido em doces segredos sexuais. De fazer amor. De trepar. De dar. De fazer sexo. De expor toda libido.
É assim – e talvez mais do que se consiga traduzir em palavras- o livroInCorPoros – Nuances de Libido – de Akins Kintê e Nina Silva.
Com prefácio poético de Lia Vieira, o livro encanta pela capa, pelo tamanho – o ideal -  e pelas poesias. Ora leves, ora vorazes, mas sempre com um toque musical, cultural, gostoso de ser lido. Um livro para ser saboreado. Ás vezes devorado. Com pressa e com calma, num vai-e-vém cadente, quase sexual.
Libido. Sentimentos à flor da pele. Corpos negros, que se entrelaçam em mãos brancas que seguram a obra. Que cadenciam o falo, que envolvem o leitor num sentimento de amor. O lixo exala vida. Exala o aroma do amor, do sentimento, do querer. É uma literatura palpável. É possível sentí-la e tocá-la, como a pele de quem se ama, de quem se trepa, de quem se quer estar junto.
Numa dança afro, ao som de tambores misturados com vinis e belas poesias declamadas num sarau imaginário, a publicação faz parte do Ciclo Contínuo de Literaturas e é mais uma iniciativa contemplada pelo programa VAI da prefeitura de São Paulo – SP. Em suas 80 páginas, traz saudades, momentos, intimidades, raivas, medos e deleites.
O veterano Akins Kintê, frequentador assíduo de saraus, co-autor do livro Punga, em parceria com a escritora e jornalista Elizandra Souza, une sua poesia e sua arte – ele é também documentarista e como se auto-intitula “operário da vida diária” com a de Nina Silva, a moradora do Rio de Janeiro que escreve desde os quatro anos de idade, é modelo, militante negra, além de ter sido co-organizadora do livro “Cada fio uma história”.
A obra traz também ilustrações de Marcos Santos Ferraz (Marcos zx) no miolo. A capa fica por conta de Iléa Ferraz.
Assim, numa literatura única, erótica, exótica, crítica, social, intensa, tensa e tesa, Akins Kintê e Nina Silva nos brindam com uma obra única, que transita entre a cultura negra, marginal e elitizada, sem qualquer problema, afinal, tudo que queremos, no final, é gozar. A nossa maneira, mas é o que queremos.
Portanto: boa leitura. Sem masturbação mental.

Mais sobre o trabalho no blog: http://akinskinte.blogspot.com

RESENHAS 2011

Bocada - Forte ::: Palavras & Afins

Amigos? Olha, da minha parte é 100 mágoas

Data: 19/10/2011

Rodrigo Ciríaco volta mais maduro em seu segundo livro e apresenta suas 100 mágoas ou textos escritos sem mágoas


“Amigos? olha, da minha parte era só isso... 100 mágoas”. Assim é o conto de Rodrigo Ciríaco, que mesmo antes de ser lançado, está na boca dos frequentadores do sarau da Cooperifa e de quem aprecia a boa literatura.


O texto, que quando declamado ganha vida a partir da encenação espirituosa do autor, é parte do livro 100 mágoas, lançado hoje, durante o sarau de número 500 da Cooperifa, que completa, nesta mesma data, 10 anos de um movimento que agita culturalmente as periferias de São Paulo e está também inserido na 4ª Mostra Cultural da Cooperifa.
E toda essa festa é merecida. O escritor, parte da literatura marginal que emerge das periferias lança o seu segundo livro. Mais maduro que o primeiro, a obra que se parece com o título e parece, realmente, o desabafo das 100 mágoas de Ciríaco marca o momento de qualidade literária que vem das quebradas.


100 mágoas é o tipo de leitura visceral. Você não a consome. Não dá tempo. Ela faz isso em você bem antes. E faz  com poesia. Com conhecimento de causa. Sem (100) perceber, você é tomado por contos como Mãe de aluguel,  se sente a Maria, a própria boneca. Se sente preto, branco. O sistema e o descaso.  Tem gosto de cuspe derramado em pratos limpos. As letras de Ciríaco acertam contas com a periferia, com o leitor, com a vingança represada durante anos pela mordaça invisível que a sociedade nos impõe. As palavras – magoadas – nas páginas do livro, que traz ainda um projeto gráfico inovador, feito por Silvana Martins, em algum lugar lembram o Sonho Meu e nos fazem saber, obrigatoriamente que o pulso ainda pulsa. E mais, lembranças e imaginações que trazem um coração que sangra, e ao mesmo tempo sorri, como se já soubesse o remédio para a cura.


100 Mágoas é um livro repleto delas, mas, que mesmo assim, quer ser nosso amigo. Vale a pena estender a mão e arriscar um cumprimento?


Eu tive medo. Sabia que se segurasse, não soltaria mais. Fique sim, magoada, mas hoje, também acho que podemos ser amigos. Afinal, por mais doloridas que sejam as memórias, por mais ‘impossíveis’ que sejam os sonhos, por mais tristes que sejam as palavras. É literatura, e da melhor que se pode provar.


Hoje, sou assim porque em determinado momento tive coragem de rasgar o véu da mordaça e falar. Falar sobre o que não é novidade, mas que, com o choque, se torna inédito.


E quando você termina de ler, pensa: Cansei, mas é aí que tudo começa. A sensação de ter tontura, após uma pancada no estômago não vai embora com o ponto final. Permanece por vários dias. Vira raiva. Raiva da vida, do autor, do desgraçado-filho-da-puta-que-pariu-estas-letras-e-está-me-fazendo-pensar-assim-na-vida, mas, ela passa e eu também acho que podemos ser amigos, enfim. Da minha parte era só isso (...)
Quando lançou o primeiro livro, o “Te Pego lá fora”, Ciríaco colocou nas ruas um estilo único, que manteve aprimorado em 100 mágoas, por que olha, eu também acho que podemos ser amigos. Da minha parte era só isso (...)


Sobre o AutorRodrigo Círiaco é educador e escritor. Coordena há cinco anos em uma escola pública da periferia de São Paulo o projeto de incentivo a leitura, escrita e criação artística, Literatura (é) Possível, na qual desenvolve oficinas de literatura e teatro, encontros com poetas e escritores e mensalmente o Sarau dos Mesquiteiros,  que acontece todo último sábado de cada mês, na própria escola (www.mesquiteiros.blogspot.com).


Autor do livro de contos “Te Pego Lá Fora” (Edições Toró, 2008), participou de vários outros trabalhos como convidado, sendo o último a tradução de alguns de seus contos para o francês no livro “Je Suis Favela” (Anacaona Editions, 2011). É criador e editor do blog Efeito Colateral (www.efeito-colateral.blogspot.com), além de registrar participações em eventos culturais e literários da rede SESC, Itaú Cultural e FLIP (Festa Literária de Paraty) 2011. Em 19 de outubro lança o seu segundo livro de contos, “100 Mágoas”, no bar do Zé Batidão, durante o sarau da 4ª Mostra Cultural da Cooperifa.


Outros lançamentos previstos:SARAU DO BINHO: segunda, 24 de outubro, 21hs
SARAU BEM BLACK (BA): quarta, 26 de outubro, 19hs
SARAU DOS MESQUITEIROS: sábado, 29 de outubro, 18hs
SARAU SUBURBANO: terça, 08 de novembro, 20hs
SARAU ELO DA CORRENTE: quinta, 10 de novembro, 19hs
SARAU PAVIO DA CULTURA: sábado, 12 de novembro, 19hs
SARAU DA ADEMAR: domingo, 13 de novembro, 18hs
BALADA LITERÁRIA: domingo, 20 de novembro, 17hs
SARAU DA BRASA: sábado, 03 de dezembro, 19hs
CDC TIDE SETUBAL: sexta, 09 de dezembro, 19hs


FICHA TÉCNICA100 Mágoas
Rodrigo Ciríaco
Edições Um Por Todos
122 páginas
Edição: Rodrigo Ciríaco


Informações:
www.efeito-colateral.blogspot.com
rodrigociriaco@yahoo.com.br
+ 55 11 9457-6708

Por: Jéssica Balbino

Bocada - Forte ::: Palavras & Afins

A Rainha do Cine Roma

Data: 19/07/2011
Capa do livro
Lente periférica de autor mexicano mostra o Brasil que muitos querem ignorarO melhor livro que li nos últimos tempos. Essa foi a sensação que tive quando cheguei no ponto final do romance A Rainha do Cine Roma, de Alejandro Reyes.

O mexicano, que viveu em países como Estados Unidos e França, conhece mais sobre o Brasil do que os nascidos nas terras descobertas por Cabral. E mais: escreve, com tanta propriedade, em sua literatura marginal, que tira o fôlego. Um livro preciso, direto – sem ser óbvio –, triste, mas não sem deixar um rastro de esperança a cada novo acontecimento. Na orelha, o veterano Ferréz avisa: "Alejandro Reyes prova, de uma vez por todas, que a dor é a maior escola que existe". É verdade. As histórias de Betinho e Maria Aparecida, duas crianças que receberam do destino o pior que a vida poderia dar, se fundem com as nossas histórias, do dia-a-dia, da falta de sorte – ou seria excesso de azar?

Um livro forte, que faz mais forte quem o lê. Duro, cru e cruel, mas real. Assim como a literatura marginal, periférica ou seja lá o nome que quiserem dar a quem fala dos excluídos, dos que vivem, como Betinho e Maria Aparecida, se alimentando com restos, dormindo em locais fétidos, em meio a ratos e baratos e que são obrigados a conviver com todo tipo de dor, abuso e fragilização. Duas crianças que ninguém – tampouco o sistema – jamais protegeu e que se amam, acima de tudo. E é esse amor que as faz chegar ao ponto final do livro, que sabemos não ser o ponto final de suas vidas e desgraças. Mas há histórias felizes, de alegria, esperança, diversão e amor. Sim, amor, mesmo nas ruas de Salvador, uma cidade com todas suas cores e loucuras, exatamente como é mostrada no livro.

Alejandro Reyes é de uma escrita impecável. Com o português direto e sem firulas, nos mostra um mundo que, com frequência, tentamos não ver. Aliás, nos esforçamos para escondê-lo, mascará-lo. Amores proibidos, verdades, mentiras, noites de sexo louco, dias de lágrimas intermináveis, muitas horas – ou dias – sem comer e somente uma coisa: a esperança de dias melhores. Afinal, são duas crianças que não querem muito: apenas ficar juntas, num lugar que não cheire mijo e não tenha ratos por perto. Ah, e que não sejam agredidas simplesmente por morarem na rua.

Entre os inúmeros livros que já passaram pela minha mão neste ano, é o melhor. Tão bonito quanto a rainha do Cine Roma se tornou na minha imaginação.

Ficha técnica
Título: A Rainha do Cine Roma
Autor: Alejandro Reyes
Número de páginas: 289
Editora: Leya

AVALIAÇÃO CHH: Ótimo

Por: Jéssica Balbino

Bocada - Forte ::: Palavras & Afins

Eu, tu, elas, etc.

Data: 19/08/2011
Capa de ´Elas etc.`
Em poucas páginas: literatura de Tico surpreende pela qualidade e subversão

Meio sozinho em meio a tantos títulos de capas coloridas, enfeitadas, grandes, modernas. Lá estava ele, timidamente, escolhendo quem seria seu próximo leitor. É, eu ainda acredito que são os livros que escolhem os leitores. Jogou a isca e me pegou. Não sei dizer se pelo nome Elas etc., se pela capa em cores escuras, com um desenho libidinoso, ou se porque eu já tinha olhado todos os títulos e ainda não tinha encontrado nada que me fisgasse.

Na contra-capa, ele fala de empinar pipa, andar descalço, sem camisa, na rua de terra. Coisas que me remetem a uma época tão saudosa que não continuei a ler. Leria aquele livro de qualquer maneira. Para minha surpresa, eu relutei em terminar de ler  a obra. Não por ser ruim. Por ser boa demais. Li um conto de cada vez, saboreando, como se fosse o último bom-bom de uma caixa que eu não sei quando poderei comer de novo.

Contos simples, curtos, com palavras diretas. Sem frescuras. Interligados por pequenos detalhes, que só o leitor mais atento consegue perceber. Tendo nas mulheres os personagens centrais dos relatos, o autor passeia por um entremeado de outros autores, de sentimentos, de cores, de realismo e de sensacionalismo, e mais, beira o surrealismo em histórias que nos fazem pensar, sentir, vibrar.

Resumindo em uma palavra, o livro de pouco mais de 100 páginas é EXCITANTE. O tipo de obra que começa numa preliminar – daquelas que você nem percebe quando deixa de ser só um carinho e passa a ser sacanagem – e termina num explosivo, frenético e extasiante gozo.

Romântico sem ser enjoativo, duro sem ser absurdamente cruel, brincalhão a ponto de te fazer rir durante as desgraças narradas, é inteligente e espirituoso . Um livro para ser curtido, saboreado, experimentado, relido. Não se esgota quando chega o ponto final na última página. É aí que tudo começa. Indagações, questionamentos, porquês, por quês?! Quem é o autor que conhece tão bem a periferia e a burguesia e que passeia por elas com tanta maestria?

Dentro do que chamamos de literatura marginal ou periférica, Elas etc. é uma grande obra.

Ficha Técnica
Título: Elas etc.Autor: Tico
Número de páginas: 112 páginas
Editora: Edições inteligentes

AVALIAÇÃO CHH: Ótimo

Por: Jéssica Balbino

Bocada - Forte ::: Palavras & Afins

Nos ouvidos: como música

Data: 06/07/2011
Do livro Black Music, de Arthur Dapieve

O título já desperta para o prazer, a loucura, a cor e o ritmo da Black Music. Assim é chamado o livro de Arthur Dapieve, que conta a história de um jovem americano, isolado do mundo real, vivendo no Brasil e prisioneiro de um traficante de apenas 17 anos, que namora várias garotas, entre elas, uma que se encanta pelo estrangeiro.

Ao som do jazz, do rap e do funk, os jovens passam a viver uma relação triangular num dos morros brasileiros, que nada tem de diferentes em meio a violência, sonhos ameaçados e o lirismo. Aí sim, entra a semelhança com a black music. A mudança na vida dos jovens que se entrelaçam no triangulo amoroso acontece de forma natural. O estrangeiro, Michael Philips, 13 anos, conhece tudo sobre jazz e basquete, mas nada sobre sexo. O seu sequestrador, e pseudo-traficante, He-Man, 17 anos, sonha em se tornar o maior rapper do Brasil. Uma das namoradas, Jô, 16 anos, adquiriu todo conhecimento de vida através dos funks de Tati Quebra-Barraco e das conversas com a irmã.

A rotina dos três passa a ser uma só quando Michael é seqüestrado pelo bando de He-Man e levado para um morro no Rio de Janeiro, onde é cuidado por Jô, dentro de um cativeiro abafado e todos descobrem sensações conflitantes e proibidas. Sonhos são revelados como letras de música negra e confundem-se com raiva, medos e prazer. O amor passa distante e a literatura periférica se faz presente por estar na favela, porém, não ressalta a miséria social como de costume. A visão é outra, porém, bem-humorada, ácida e perturbadora.

Ficha Técnica
Título: Black Music
Autor: Arthur Dapieve
Número de páginas: 112
Editora: Objetiva

AVALIAÇÃO CHH: Bom

Bocada - Forte ::: Palavras & Afins

Os mesmos no mundo

Data: 30/05/2011
A capa do livro de Preto Ghóez
Preto Ghóez, escritor, poeta e MC

"Ponto final" inacabado perturba leitor em obra de Preto GhóezA Sociedade do Código de Barras – O Mundo dos Mesmos. Esse é o título do primeiro volume, que seria uma trilogia escrita por Preto Ghóez. Morto num acidente de carro, ele deixou pronta apenas a primeira obra, que perturba tanto quanto o "ponto final" inacabado num livro que rende questionamentos, noites sem sono e muitas perguntas.


Ao melhor estilo de George Orwell, em 1984, Ghóez brinca com o capitalismo, faz trocadilhos com nomes comuns como "Settaglib" (numa menção a Bill Gates) e obriga os leitores a desvendar o que há de real por trás da ficção, ora assustadora, ora divertida e sempre preocupante.


Somos ou não dominados por uma força maior, que se reúne para decidir o que fazer com a massa? Observados por câmeras, microchips e computadores, os "mesmos", os "diferentes" e até mesmo os "transeuntes" - categorias criadas por Preto Ghóez para separar a sociedade em tipos de pessoas -, vivem num mundo controlado pelo dinheiro, pela ambição e pelos desejos ocultos. Uma paródia da realidade, contada de uma forma absolutamente inovadora.


As páginas do romance mesclam ficção científica, amor, ódio, vingança, bizarrices e o mais intrigante: poesias e pontos de dispersão. É preciso cuidado ao ler, e uma só leitura é pouco. Reler é interessante e pode mostrar caminhos ainda não percorridos.


Um dos pioneiros no gênero da literatura marginal, o livro vai além de descrever ruas e vielas dos guetos e passa por ambientes luxuosos, que contrastam com aviões, ônibus, mortes violentas e mortes também lentas. Os conflitos e diálogos de cada personagem são expostos de uma maneira original. É uma mescla de tudo que há de bom na literatura. Recomendo, apesar de ser uma edição já esgotada e mais difícil de achar do que “mosca branca de olhos azuis”.

A Sociedade do Código de Barras – O Mundo dos Mesmos
 é uma obra que merece ser apreciada, lida, degustada. Um trabalho que merece respeito.

Ficha Técnica

Título: A Sociedade do Código de Barras – O Mundo dos Mesmos 
Autor: Preto Ghóez
Número de páginas: 291
Editora: Estação Hip-Hop


AVALIAÇÃO CHH: Ótimo


Leia também
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Por: Jéssica Balbino


Bocada - Forte ::: Palavras & Afins

Te pego lá dentro!

Data: 09/05/2011
A capa do livro
Rodrigo Ciríaco
Rodrigo Ciríaco, a periferia, a sala de aula, a escola, do portão pra fora e do coração para dentro

Te Pego Lá Fora. É com essa frase que muitos alunos tocam terror para cima de outros durante o horário de aulas nas escolas de todo Brasil. Professor e poeta, Rodrigo Ciríaco brinda a literatura brasileira com o livro de contos que leva este nome. Estreante, ele se mostra maduro, confiante e extremamente sensível. Publicado pela Edições Toró, a obra traz contos longos, curtos, histórias ora divertidas, ora tristes, mas sempre recheadas de realidade, o que rege a literatura marginal.

Frases soltas como "Ei tio, me dá um conto?" e apenas isso, numa página, com o título, pedido irrecusável, são elementos que formam o livro do escritor que também teve um texto incluído em uma coletânea lançada na França. Contos surreais, mas nem por isso distantes da realidade, também fazem parte do livro, que merece ser degustado, apreciado e apreendido.

Como um mestre, não apenas na sala de aula, mas também na vida, Ciríaco ensina sobre o dia a dia dentro da escola, vestido sob a pele de um educador. Subdividido em capítulos com o nome das estações, o livro traz fotos das escolas públicas brasileiras e vai além de uma simples literatura. É um relato, é um documento.

Diálogos, gírias, palavras cotidianas e despretensão também fazem parte da obra. Dentro do contexto que a literatura se propõe, é um dos livros mais completos que já tive a chance de ler. Único, bem feito, bem pensado, repleto de sentimento e, sobretudo, ensinamento. Ao invés de dizer "te pego lá fora", Ciríaco nos pega pelo lado de dentro.

 
Ficha técnica
Título: Te Pego Lá Fora
Autor: Rodrigo Ciríaco
Número de páginas: 144
Editora: Edições Toró

AVALIAÇÃO CHH: Ótimo 


Bocada - Forte ::: Palavras & Afins

Urbanidade em grafias

Data: 24/04/2011
Capa do livro
Com 10 textos inéditos, personagens cotidianos dão charme às narrativas

Grafias Urbanas: Antologia de Contos Contemporâneos é a antologia de contos contemporâneos que faltava numa grande editora. Organizada porAdilson Miguel, o livro traz textos de autores como Fernando Bonassi, Bruno Zeni, Ferréz, Verônica Stigger, Rodrigo Lacerda, entre outros. Todos eles figuram e circulam pela literatura marginal e de grandes livrarias como quem se adapta bem a qualquer ambiente, porém, sempre com a indignação do cotidiano. Uma literatura interessada pelo presente, pelo hoje, pelo agora, pelos sentimentos, pelo social. Contos escritos no desabafo dos escritores, no mais obscuro que povoa a mente daqueles que só encontram na folha em branco o refúgio para tantos sentimentos.

Atrativo desde a capa até o projeto gráfico, o livro não deixa a desejar no conteúdo. Com uma proposta diferenciada, vai das quebradas às baladas mais inusitadas, dos sentimentos mais nobres, aos mais sujos e passeia por metrópoles e campos com uma velocidade comum à vida cotidiana. Pode ser considerado como a “elite” da literatura marginal, pois traz apenas autores já publicados, com carreiras consolidadas e grandes nomes fora das vielas e dos morros. É a chance que a classe média tem de conhecer o outro lado da ponte. Com 10 textos inéditos, o livro é extremamente urbano e criativo.

A inquietação fica por conta do leitor, que, no meu caso, parei só quando coloquei o ponto final no meu próprio texto – um conto – depois de ler a obra. Personagens cotidianos dão charme às narrativas, ora em forma de diálogos, ora em prosa e, por que não, poéticas. Um livro maduro, moderno, urbano e bonito.


Ficha Técnica
Título: Grafias Urbanas: Antologia de Contos Contemporâneos
Autor: autores diversos
Número de páginas: 144
Editora: Scipione

AVALIAÇÃO CHH: Ótimo, Bom, Regular, Ruim 

Bocada - Forte ::: Resenha

Ferréz - Cronista de um tempo ruim

Data: 07/06/2010

Capa do livro
Logomarca Selo Povo
Jéssica Balbinho e Ferréz
Arroz, feijão e literatura nestes tempos  

Deveria ser de leitura obrigatória nos ensinos fundamental, médio, no vestibular e em sequência. Deveria ser promocional, do tipo "Compre meia dúzia de pães e ganhe o livro ‘Cronista de um tempo ruim’. Arroz, feijão, farinha, macarrão e o livro "Cronista de um tempo ruim". Estes são os principais produtos da "cesta básica". Compre uma Mercedes ou uma Ferrari e ganhe o livro. Calce um tênis Nike e ganhe o livro. Abrace a causa do câncer de mama e o Ferréz: compre a camiseta e leve o livro "Cronista de um tempo ruim".

Todos os brasileiros, sejam da periferia ou não, deveriam ler este livro de bolso, de 123 páginas, com histórias e contos incríveis. Um tempo ruim - o nosso tempo - é retratado por um homem que enxerga à frente desta realidade e também deste tempo. Por um homem que nasceu e sempre viveu na quebrada, mas consegue enxergar os problemas e soluções desta vida tão miserável. O livro, em formato de bolso, pode ser adquirido pelo preço de uma refeição, ou de pouco mais que duas cervejas. Pode ser lido para sempre, passado de mão em mão, de escola em escola. Pode ser trabalhado, interpretado, porque é vivido diariamente por milhões de brasileiros desse mundaréu de quebradas, vielas, periferias e córregos sujos. A visão de Ferréz para o cotidiano periférico é bem peculiar, e para os causadores dos problemas enfrentados pelo povo que é massacrado também.

Ele diz sim à guerra contra os que merecem e pede paz aos que precisam. Ele passa por restaurantes populares, chacinas diárias na zona sul de São Paulo, falta de comida em casa, falta de comida na casa dos amigos. Muitos destes que morrem e o abandonam no meio do caminho. Seguem pelo crime, pela rima, por uma biblioteca comunitária montada numa antiga boca de tráfico e, por fim, passam pelos nossos corações - ora mesquinhos e materialistas, desejando um Nike, uma roupa da moda, um computador, um DVD ou um home theater, ora caridosos, cobrindo o mendigo que dorme na esquina, rezando por quem já se foi e agradecendo até mesmo a desgraça. Ele se arma com a caneta e dispara palavras. Não se importa quem vai machucar, mas temo que seja muito mais que quem vive do lado de lá da ponte.

No mais, o pequeno livro (que não vai mais sair do meu bolso ou da minha bolsa) é um lindo presente para a favela e para nosso o intelecto. Ferréz, você é um cara fera!


Por: Jéssica Balbino

Bocada - Forte ::: Resenha

"Hip-Hop: Dentro do Movimento", de Alessandro Buzo

Data: 20/01/2011

Alessandro Buzo passeia pelo hip-hop com o novo livro Hip-Hop: Dentro do MovimentoOusadia, coragem e consideração. Estes são os pilares da obra Hip-Hop: Dentro do Movimento, do escritor Alessandro Buzo, publicada pela editora Aeroplano. Escrito em poucos meses, o livro traça um panorama da cultura hip-hop, dentro e fora do berço dela – a cidade de São Paulo – e leva os leitores para uma viagem por dentro dos elementos do movimento. Como contextualiza Heloísa Buarque de Hollanda, a curadora da coleção Tramas Urbanas, o livro é, na verdade, uma conversa de mano para mano.

A intimidade das perguntas, a maneira de falar, a preservação das gírias e a fidelidade às gravações e mensagens fazem do livro algo puro. Uma incursão no hip-hop feita de mãos dadas com quem entende do assunto e já tem um caminho trilhado. Simples, rápido, direto, objetivo e enriquecedor. Assim é o livro do Alessandro Buzo. Como pesquisadora da cultura hip-hop, posso afirmar que é um dos livros mais completos que já li sobre o tema, uma leitura obrigatória. As mais de 60 entrevistas feitas por Alessandro Buzo mostram a dimensão do movimento em todo Brasil e mais do que isso, a propriedade do autor em falar sobre o tema.

Apesar do formato, o livro está longe de ser cansativo e descortina várias faces de uma cultura que luta há mais de 30 anos para se consolidar. Personalidades como Nelson Triunfo, Thaide, GOG, Dexter, Re.Fem e Aninha Attitude aparecem nas páginas do livro, que fica entre uma reportagem, um relato histórico, uma pesquisa e trafega naquilo que chamamos de literatura periférica.

Como o hip-hop, não segue regras, padrões, comportamentos e nem parâmetros. É uma obra livre, feita com o coração, com o envolvimento, com o sentimento. Fatos emocionantes, divertidos, tristes e engraçados aparecem ao longo das entrevistas ou nas considerações que o autor faz entre um capítulo e outro e revelam exatamente o que o hip-hop é: contraditório e pulsante. Autêntico e periférico, o livro é mais um presente para a favela, que recebe, de alguém que vive isso tudo, uma obra singular.

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Por: Jéssica Balbino