"A vida é mesmo coisa muito frágil, uma bobagem, uma irrelevância..." (Nando Reis)E foi assim que me senti quando recebi a notícia de que meu cabeleireiro, o Luiz Souzart tinha falecido.
Vítima de um infarto fulminante, ele deixou este mundo na manhã de segunda-feira (12) quando foi encontrado pelo irmão.
Caído no banheiro da própria casa, ele já estava morto há aproximadamente três horas, segundo constataram os médicos e enfermeiros do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
A tristeza da notícia me fez refletir e questionar comigo mesma a leveza e grande besteira que são a vida e a morte.
Ele morreu sem realizar o maior sonho que tinha: abrir uma fábrica de comésticos capilares. Faltou apenas uma autorização da Vigilância Sanitária, que por conta da burocracia, tem levado anos para fazer uma vistoria. Isso impediu que ele sorrisse, satisfeito, por ver o sonho realizado antes de partir.
A morte dele o impede de criar as duas filhas, a quem ele tinha tanto amor e falava com os olhos brilhando sobre as descobertas das duas.
Impediu ainda que ele arrumasse o cabelo da noiva do filho, que vai se casar no próximo ano. Impediu que ele passasse a mais pessoas o dom de cortar cabelos magicamente e semelhantemente ao Edward, mãos de tesoura.
Por outro lado, vejo pessoas mesquinhas, egocêntricas e egoístas que ameaçam se matar diante de qualquer bobagem como uma briga conjugal, ou que brigam por coisas mesquinhas e se esquecem de aproveitar a vida.
Ele não pode se perpetuar. Os cabelos que ele cortou crescem. A tintura que ele fez desbota e todo legado vira apenas lembrança.
Sei que nunca mais terei um cabeleireiro tão bom e competente, que cortava meu cabelo com a navalha e o deixava perfeito e uniforme. Que gastava horas e mais horas encontrando o tom ideal para o meu cabelo, fazendo mechas californianas, descolorindo, encontrando o roxo ideal, o rosa vibrante e até mesmo o laranja berrante.
Desde os cinco anos que eu corto cabelo com ele e todas as vezes que me arrisquei à tesouras em outras mãos, fiz bobagem e apareci pra ele, chorando e pedindo pra ele consertar.
Pacientemente, ele sempre conseguiu dar um jeito. Até mesmo recuperou uma franja cortada torta e muito curta.
Com o tempo aprendi que só ele sabia o que fazia no meu cabelo e deixei, na última vez que estive no salão, ele se realizar e encurtar minhas madeixas, do meio das costas para acima do ombro.
Ele tinha uma vontade incrível de cortar o meu cabelo e eu permiti que ele o fizesse. Sem saber que partiria.
Dois dias antes de morrer ele ainda orientou a mim e a minha mãe sobre qual secador de cabelo era bom e qual deveríamos comprar. Compramos um igualzinho ao dele.
Ficam as lembranas, os sonhos e a vontade de encontrar alguém que dê sequencia a empresa que ele estava abrindo. Que venda os mesmos comésticos, a preços acessíveis e qualidade impecável.
Ele partiu sem que soubéssemos qual era a encomenda que ele gostaria que entregássemos, na próxima sexta-feira, a um grande amigo que hoje vive em Porto Seguro.
A irrelevância da vida permitiu com que ele partisse antes de todo mundo e antes de si mesmo. Com muita vontade de viver, dignidade e honestidade.
Com esta morte, neste ano, somam-se três pessoas queridas que se foram: Tia Nézia, Dina Di e Luiz.
Penso em como serão os dias seguintes às famílias, a quem fica, a quem era acostumado, ao que vai se seguir e em como a mesquinharia toma conta.
Me entristeço por saber que os atrasa lado estão presentes a todo tempo e que ninguém faz nada por ninguém, mesmo sabendo que a vida é muito rara.
Quero que ele descanse em paz, e que, em algum lugar, inspire as pessoas próximas com tanta sabedoria para cortar cabelos, tingir, escovar e fazer maravilhas. Sem nunca perder a humildade e o talento.
Luiz, querido, vai em paz ! Quem sabe um dia a gente se encontra aí em cima e aí eu deixo você cortar meu cabelo curtinho e fazer mechas praianas, cor-de-rosa !
Humildade sempre, guerreiro !

E o último corte de cabelo que ele fez em mim foi este, após tantas escovas diferentes, tantos penteados, tantas formaturas e casamentos.
PAZ.
Jéssica Balbino